quarta-feira, 23 de maio de 2018

VENCEU!

 
                                                    Foto: Netmadeira
Tem um bonde que passa no Centro turístico da cidade. No último passeio, pude ver com tempo e detalhes vivíssimos, as velhas casas e armazéns do século passado.
Paredes fortes e espessas. Algumas frontarias, azulejadas. Mas muitos deles, abandonados. Quase desabando. Restando apenas vestígios de que já foram. Pedaços de parede ou parte do telhado.
Em quase todos, no entanto, mudas de plantas saltavam do concreto. Surgiam das entranhas. Vivas e verdes. Raízes que romperam estruturas rígidas e pelas frestas se embrenharam até despontarem para a luz. Até mesmo nas ruas de trilhos, no vão dos velhos paralelepípedos, restavam, heróicas, as vívidas plantinhas, erguendo-se  do chão.
Lembrei da minha lágrima de cristo... Eu havia tentado, por diversas vezes, plantar a trepadeira no canteiro da casa ajardinada onde morava. Nenhuma delas vingou. A tumbérgia não resistiu. Tão pouco o sapatinho de judia. Até o resistente maracujá, cresceu, deu dois frutos e secou.
Mas foi num dia inesperado, num pequeno buraquinho entre o cimento e a madeira da pilastra que erguia o alpendre, que ela surgiu... Veio como um broto pontudo, despontando. Depois, uma folhinha. Desenrolou e se abriu. Em poucos dias, várias florzinhas brancas, de pistilo vermelho já se enroscavam no telhado, dando cor e vida à cinzenta arquitetura.
De onde veio aquela lágrima? Silenciosa e persistente... Como conseguiu vencer? De certo, as plantas são mais fortes que a gente. Pequenas barreiras já nos fazem voltar. Elas, não. Suas raízes fortes caminham devagar. Rasteiam, volteiam e se embrenham. É a força da vida. Que fura o concreto. Rompe o asfalto. E, maravilhosamente, vence! É a vida, rosa viva, que vence!
E foi ali, naquele buraquinho do canteiro, que surgiu e cresceu, exuberante, a minha lágrima de Cristo. Bela. Singela. Regada e nutrida com tudo que precisava. A lágrima, de Cristo. E o sal, da terra.
                 
 
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quarta-feira, 16 de maio de 2018

NUM PISCAR DE OLHOS

 
                         

Foi numa quinta, de manhã. Na hora de ler a minha receita preferida. A página, toda amarrotada. Algumas marcas de gordura vegetal e chocolate.  Era, com certeza, a mais manuseada do caderninho guardado a sete chaves na gaveta da cozinha.
Olhei bem firme para aquela página e todas as letrinhas, sem exceção, tal qual  os ingredientes do desejado bolo, haviam se misturado! O texto todo, repleto de medidas, itens e saborosos parágrafos, tinha se transformado num único bloco. Nebuloso e compacto. Ilegível. Texto chinês!
Esfreguei os olhos e afastei a mão que segurava o papel. Afastei mais. E mais. Fui perto da janela. Por fim, a constatação: não conseguia ler. De um dia pra outro. Num piscar de olhos! Eu não podia mais enxergar as letrinhas e coisinhas miúdas. E elas são tantas... Nos rótulos. Nas bulas. Nos boletos a pagar.
O oftalmologista disse que é assim mesmo. Um grauzinho por ano depois dos quarenta. Ele estava certo. Meu olho esquerdo já passou dos três. A coisa é rápida! Mas o que significa rápido mesmo? Relativo, responderia aquele cientista judeu alemão, mostrando a língua...  
Por trás de cada mudança, certamente um processo interno e particular de perdas e transformações já engatinha. Muitas vezes, silencioso e invisível. Porém contínuo. Implacável.
Nascemos, crescemos, casamos, criamos filhos. Erramos, acertamos, escolhemos. Seguimos caminhos tortos, retornamos, recomeçamos... E assim seguimos,  muitas vezes cambaleantes e exaustos. Por décadas e décadas.
Num belo dia, a gente amarela. Amadurece. Igual fruta. E cai. É o ponto xis. O piscar de olhos! E então nos percebemos velhos. Mais feios. Mais arqueados. Mais experientes. E sábios, talvez. Porém ingênuos. Acreditamos que tudo foi... num piscar de olhos!!!
Ah vai...
 
 
foto: cromossomosblog 
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quarta-feira, 9 de maio de 2018

O DONO DO FACÃO...

 
Eu tinha muito medo do Seo Abel. Era o caseiro do sítio. Magro, um metro e noventa. Olhos fundos. A pele enrugada e castigada de sol. Dizia poucas palavras: Pode deixar. Não dá, não senhor. Amanhã vejo isso! Fumava muito e andava sempre com um facão afiado na cintura, cortando lenha, mato, ou o que aparecesse de ruim.
Diziam na redondeza, que desse jeito, já tinha dado fim em um bandido lá pelos lados de Goiás. Eu tinha muito medo do Seo Abel... 
De tarde era tranquilo passear pelas cercanias. O sítio tinha três saídas. De um lado, o grotão, com um olho d’água e grandes árvores que fechavam a paisagem e davam aspecto de mata densa e sombria. Havia uma ponte de eucalipto para atravessar. Mas eu não me atrevia. Eu tinha muito medo de encontrar o Seo Abel...
Do outro lado, um caminho suave que cruzava a pequena horta e ia dar no lago. E por fim, a saída principal, passando pela casa do caseiro, frente a um pequeno poste de luz amarela e uma constante fumaça que saia da chaminé...
Naquela noite a lua estava cheia e eu queria ver seu reflexo nas águas serenas do lago. Sai caminhando pela horta, acompanhada de poéticos pensamentos, mas com o desconforto de quem poderia estar sendo vigiada.
Passei pelo milharal. Olhei para o lado. Para o outro. Dei dois passos para trás. Então, esbarro numa camisa xadrez, mangas largas, que parecem me abraçar.
Sem raciocínio algum, começo a correr desesperada, sem perceber a saia rodada, os cabelos de milho e a cara de abóbora, mal feita, da pobre espantalho!
Seguindo em disparada pelo lado contrário, grito em alto e bom som, contra todos os preconceitos:  Seo Abel me ajuda! Seo Abel me ajuda!
E o homem rude e de facão na cintura, em frente ao poste de luzinha amarela, lá de longe, abriu seus braços, pra me proteger. 
 
 
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quarta-feira, 2 de maio de 2018

O MAR ESTÁ LÁ DENTRO...

A casa era de um silêncio tão absurdo que o tic tac de um pequeno relógio na parede era percebido por qualquer pessoa que adentrasse a porta, seguindo pela sala, chegando até o quarto.
Amplo e arrumado. Era o canto de estudos do casal de adolescentes. Lá também havia um silêncio denso. Quase palpável. E profundo. Eu já estava acostumada a sentir aquele nada ensurdecedor todas as quartas e sextas quando ia à casa dos Ávilas para estudar com seus dois filhos, ambos vestibulandos, como eu.
Até a presença da mãe, na cozinha, não era percebida. Talvez andasse com polainas, sapatilhas ou algo assim, de lã ou cetim. Eram tão suaves... Como toda a família.
Filhos inteligentes e estudiosos. O pai, sempre no trabalho. A mãe quase não falava. Sorria gentil. E no final da tarde, vinha com chás e biscoitos. Coisa de ingleses, naturalmente. Embora não fossem.
Tudo era muito diferente da ruidosa realidade onde eu vivia. Rodeada de cachorros latindo, mãe cantando no quintal. E a tevê sempre ligada em um programa de variedade qualquer. Aquele silêncio semanal era necessário. Pelo menos para o objetivo que eu havia traçado. E o tic tac hipnótico do relógio da sala, marcava o tempo exato para o exame final.
Mas foi numa das idas ao banheiro da hermética e silenciosa casa dos Ávilas, que encontrei, em cima de um antigo buffet, extremamente limpo e conservado, uma enorme concha na forma de caramujo. A senhora me olhou com carinho e disse: Ouça o que tem dentro! Fazemos isso todos os dias...
Imediatamente segurei a bela concha creme e marrom e levei até os meus ouvidos. E ouvi, ali dentro, o ecoar das ondas, imaginando sentir, por alguns segundos e de olhos fechados, o cheiro do mar... Um verdadeiro bálsamo entre inglês e matemática.  
Tão lindo e tão contraditório. Aquela casa absurdamente em silêncio. No meio do centro urbano. Aquela família amável. Que tomava chá da tarde e ouvia o tic tac rígido e intermitente de um relógio na parede...
Todas as tardes, eles paravam para ouvir o mar.   

 
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Link abaixo,  para ler  a interessante matéria: Por que ouvimos o som do mar nas conchas?


Foto: Site : Fatos desconhecidos

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quarta-feira, 25 de abril de 2018

TÊNIS OU PARDAIS?

Foi ontem. Ao abrir a janela do meu quarto. Vejo um par de tênis, cinza e sujo, pendurado no fio de alta tensão. Ao lado, dois pardais. Tudo bem ali. Diante dos meus olhos. Desnaturalizando a paisagem da minha janela.
De cara imaginei algum moleque mais velho, de birra, tirando e lançando para o alto o tênis de um garoto mais novo. Uma espécie de bullying. Pura provocação! Mas não existem tantos moleques malvados assim. E em tantos lugares, bairros, cidades... Afinal, vejo os tais tênis pendurados nos fios, desde criança, quando ainda brincava em ruas de terra. Eles estão por toda a parte.
Imaginei, então, um jogo. Um tipo de arremesso certeiro. Amarram-se os cordões e o fio amarrado deve girar várias vezes, enrolando nos fios do poste. Quem conseguir rodar mais vezes, ganha o jogo! Mas os tênis custam tão caro. Qual mãe deixaria seu filho brincar assim? Diante de tantas indagações e o Google à disposição, descobri, na verdade, que esta prática está muito além de uma simples brincadeirinha de criança.
Pode estar envolvida com territórios demarcados por bandidos ou marginais. Alguns sites* afirmam que esta prática começou com a máfia nos EUA. Significaria “área dominada”. Diante da descoberta de tamanho mistério e um novelo que não pretendo desfiar, retornei à minha janela.
A esperança era de que alguém tivesse chamado a companhia elétrica, a prefeitura, ou sei lá quem, que tivesse tirado o par de tênis da frente da janela, dos meus olhos. E da perigosa rede de alta tensão. Mas não. Lá estava o par cinza e sujo. Agora tinha dois canários da terra como companhia.
Fiquei imaginando os tristes pássaros, se eles pudessem falar...  O que estariam dizendo? O que estariam pensando de nós? Que somos tolos? Que sempre estragamos o que é belo? Jamais saberemos.
Mas, certamente, se os plumados fossem humanos, nos tempos "gourmet" de hoje em dia, estariam disputando lugar nos fios. Pra ver quem fica ao lado de um tênis Nike ou Reebok!
Mas pássaros não são humanos. Jamais pensariam assim. Pássaros são divinos. Não usam tênis. Usam asas pra voar!



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                     *Matéria sobre os tênis pendurados. Link abaixo.



https://segredosdomundo.r7.com/a-verdade-sobre-os-tenis-pendurados-em-fios-de-alta-tensao/


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quarta-feira, 18 de abril de 2018

PEDRAS DE XADREZ?

 
 
Amanheceu assim. Em cima do molhe de pedras da pequena prainha, perto do Itararé. Eram pedras médias e pequenas, empilhadas. Pareciam estátuas. De longe, lembravam figuras humanas. Damas, bispos, ou bruxas de chapéu. De perto, apenas pedra sobre pedra. Sem muito estudo ou presunção. Arte? Diversão? Quem fez aquilo? Ninguém no pedaço viu...
Talvez tenham sido crianças brincando, cansadas de erguer castelinhos com pingos de areia mole escorrendo das mãos. Talvez, Deuses astronautas, tentando comunicação. Cada amontoado seria um símbolo. Uma linguagem cifrada!  Tentando entender o que se passa no Brasil. A gente não entende mais nada... Só sei que na vizinhança, ninguém conseguiu explicar as pedras amontoadas que apareceram em frente ao mar.
No dia seguinte, veio a chuva. E a forte ressaca fez o cenário desmoronar. As pedras voltaram. Rasteiras. Cada uma para um lugar. Espalhadas no molhe. Espraiadas no chão. Livres de qualquer intenção.
Mas nesta semana, a cena se repetiu. Agora com mais pedras empilhadas. Grandes, pequenas. Dezenas. Numa espécie de exposição arquitetada. Além do equilíbrio exato, um claro estilo, nos livres formatos. Não deve ter sido fácil, erguer tudo sem cansaço. Um profissional? Bem pago?
Minha curiosidade falou mais alto. Entrei no quiosque vizinho e perguntei ao rapaz que atendia gentilmente no bar. Você sabe quem fez isso ? Sei sim. Foi o Pixote. Catador de latinhas. Morador de rua. Ele se diverte assim. Daqui a pouco está por aqui...  
Não deu pra esperar. Mas ele vive aqui por perto. Talvez o encontre outro dia, tire uma foto com ele e diga, com a certeza que existe dentro de mim: é pura arte, sim!
Não pelo amontoado das pedras. Mas, por viver, reinventando assim!

 


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terça-feira, 10 de abril de 2018

A BUZINA DA BARATINHA

 
 
Ele tinha várias manias. Frequentar o podólogo, sem muita necessidade. Comer macarrão com pão. Tomar rabo de galo, aos domingos, depois dos jogos de várzea no Maria Zélia. Além de ser dono de um par de olhos incrivelmente azuis...
Esse era meu pai, o velho Silvio, que adorava brincar. Viveu a vida brincando. Sabia fazer, com dobras no lenço, um ratinho de pano que, acionado pelo seu rápido polegar, pulava em cima das pessoas. Em geral das crianças, que corriam de susto e pediam para repetir! Era craque em um jogo da memória chamado  o “ frasco do vinho bom” , onde cada participante tinha que repetir as frases criadas pelo grupo e acrescentar mais uma. Meu pai ganhava sempre. E com seus lindos olhinhos azuis, piscava só para mim...  
O “seo” Silvio era alegre. Divertido. E imitava buzinas de carro como ninguém. De todo o resto, sucesso profissional, investimentos, casamento, patrimônio adquirido ao longo da vida, é melhor não falar... Nada deu muito certo! Mas para os filhos, ainda pequenos, importava mais é que ele sabia imitar a buzina do Fordinho vinte e nove!
Apesar de que, eu e meus irmãos, nunca tivéssemos andado na sua “Baratinha”, que ficou bastante conhecida no bairro do Belenzinho, em uma época que haviam poucos carros nas ruas...
Nos anos setenta, já tinhamos um Gordini. E todos os sábados, meu pai levava a família jantar no alto da Móoca. O preferido era o Varella, restaurante que anos mais tarde, foi palco de um atentado político. Na volta, meu pai lançava o grande desafio. Descer do alto da Avenida Paes de Barros com o motor desligado. Na banguela. Até quanto aguentasse...  
Eu, pequena, no colo de minha mãe, ficava torcendo pra que os faróis abrissem e o carro não tivesse que parar. Era excitante. E quando algum carro ficava na nossa frente, meu pai pedia que eu colocasse a mão na direção e começava a imitar a velha buzina... arrrua! arrua!  
Eu adorava aquele som. E eu queria chegar mais longe. Certa vez, meu pai desviou com destreza de todos os carros à frente e mesmo quase parando, conseguimos chegar até o último farol da Paes de Barros, já quase no viaduto. Conseguimos!
E eu tinha ao lado um herói. E de olhos azuis!
 
 
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