quarta-feira, 27 de abril de 2016

PURA LEVEZA...



                                                                                                   foto: Tony Lamers


Nunca gostei muito de Zoológico. Mas, de repente, me vi no meio de um deles,
no centro de um parque temático, cujo mapa das atrações era impossível decifrar.
Resultado: ao invés de um musical de cowboys, caí dentro de um mini Zoológico.

Até que o espaço para os animais era bem grande e os bichos pareciam
bem alimentados. Menos mal. Muito embora o calor quase senegalês do dia
fizesse todos parecerem entediados ou desfalecidos e jogados nas pedras,
como o urso e o leão. Não dava nem pra ter medo. 

Depois, os flamingos, os macaquinhos e os bisbilhoteiros suricatos. Nenhum deles.
O que me encantou de verdade foi a elefanta, ou aliá, como queiram. Eu prefiro “elefanta”,
 o som do “n” me parece combinar mais com o movimento alongado da tromba.

Pois bem, a elefanta olhou para mim e para o grupo que me cercava e como
se quisesse tirar uma selfie conosco,  começou lentamente a caminhar em nossa direção.

Havia um fosso, é claro, mas não era tão distante e pudemos acompanhar vagarosamente
 o desfile monumental...

Ela veio vindo, mansamente, com suas centenas de quilos e a sua pele enrugada.
Veio vindo balançado a tromba e o rabo, parando bem em frente ao grupo
para nos observar clicando.

Cabeça enorme e dois olhinhos ternos, miúdos e pretinhos. Nada tímida.
Parecia gostar das fotos. Posou para um lado e para o outro, e depois, num show
de pura leveza, começou a coçar delicadamente suas patas esfregando a direita na esquerda,
num movimento suave feito balé e que me fez lembrar Drummond em sua bela poesia
do elefante, onde ele se vê fantasiado, todos os dias, na enorme figura, porém de frágil interior.

Construído com poucos recursos, carcaça de pano e algodão, o elefante Drummond,
doce e vulnerável, caminhava lento, esfacelando-se pelas ruas,
derramando compaixão e ternura.

Não sei se me disfarço todos os dias em elefante, como amava o poeta...  
Penso que não. O peso real do elefante, muitas vezes se faz presente em mim.
E no meio daquele mini zoológico, veio a vontade, nada poética,
de dar uma patada em quem prendeu
                                              todos aqueles animais!


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quarta-feira, 20 de abril de 2016

AS PEDRAS... E AS ÁGUAS DE PARATY

                                          Foto : Tony Lamers

 
As pedras de Paraty escondem segredos que ninguém, nem os últimos calceteiros,
 
sabem decifrar. Paraty tem história escondida. Àrvores que saltam das paredes.

Igrejas e casarios. Fantasmas da abolição.
 

As ruas de Paraty não gostam de salto alto. De pedras lisas e irregulares,
 
elas pedem sandálias. Chinelos rasos e humildes, para os pés dos visitantes.
 
Ou até mesmo, pés descalços, como os dos escravos que lá pisaram.
 
Pés sujos de areia, pele grossa, pés de trabalhador servil.  

 
Mas é lá no vão das fendas entre as pedras, que escorrem os maiores segredos:

o sangue dos negros que há muito sofreram, a magia da culinária simples
 
de peixes e pão e a verdade dos livros que nunca estiveram nas feiras de literatura.

 
As pedras de Paraty tentam esconder as memórias do Brasil colônia
 
e quase conseguem.  Mas só até de tarde, quando a água do mar, sagrada e salgada,
 
vem e invade as ruas. Lava e leva as lembranças para além do alto mar!

 
A noite, então, as casinhas pintadas de azul, amarelo e branco fervilham

ao som de conversas distintas, de obras de arte, cachaça amarela e futebol.

E muita bossa nova, também. Afinal, é o Rio de Janeiro!


E na manhã brilhante de mais um dia de sol e um mar verde sem retoques,

as escunas se preparam para o passeio, repletas de turistas de diferentes línguas...

 
Mas é o sotaque do carioca que nos avisa alegremente, bradando da proa:

- Atenção, pessoal! Hora de partir, rumo ao paraíso!

 
E nas tímidas caixinhas de som da embarcação começa a tocar uma canção...

“Isso aqui ô ô... é um pouquinho do Brasil iá iá...”

E como é!

 

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terça-feira, 12 de abril de 2016

MENINOS DO SINAL


 

Sinal vermelho. Meu carro se aproxima do menino...
São dois olhos negros e sérios. As bolinhas em suas mãos pequenas, sobem, descem e triangulam num desenho lúdico e veloz. O menino de olhar atento, mostra sem riso o seu talento, na avenida cheia de carros à espera do sinal.

Eles vêm em dois ou três e começam o show. Jogam limões para o alto. Três, quatro limões, às vezes, cinco. Eles fazem malabarismos para a platéia que nem sempre quer ver. Circo sem bilheteria. Sem graça. Sem pipoca. Sem alegria... Crianças no picadeiro. Meninos semi despidos com suas habilidades nuas.
Fazem o circo. Pedem o pão.

Por vezes erram e cessam por um instante a parca apresentação. Mas não sorriem. Nem contam com a ajuda de um bom palhaço. Seguem firmes adiante, até o amarelo aparecer e dar o sinal...

É o amarelo da gorjeta. O amarelo do sorriso amarelo do motorista sem trocados. O amarelo do sol no rosto das suas faces infantis, porém já curtidas. O amarelo da raiva do apressado que nunca, nada consegue ver.

Olho por detrás do vidro. O menino se aproxima... O tempo é curto. Conto as minhas moedas rapidamente. São poucas, não dá nem um real e amarelo de vergonha por dar sempre tão pouco. Abro a janelinha e me justifico, mas o menino não parece não se importar. Não se importa com muita coisa, não se importa com quase nada... Na boca, o gosto azedo do limão...

Os olhos negros e sérios voltam a esperar o próximo show no sinal.

Verde novamente. Sigo em frente até a próximo esquina. Mais um sinal vermelho. Mais meninos e malabares. Mais circo e picadeiro. Eles pedem atenção! 
E o sinal não para...verde, amarelo, vermelho...
Em cada esquina,  do meu  atropelado coração.

 

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terça-feira, 5 de abril de 2016

A ALDEIA E A BOLA

                                                       
                                           
                                               Foto: Wikipédia

Não era um jogo qualquer de futebol.
Eram 22 índios jogando bola. E não jogavam mal.

Até o apitador era índio. E apito de índio merece respeito.
Embora chamasse a atenção o contraste rústico-fashion-pop das meias e calções com marcas famosas estampadas, os rostos, no entanto, estampavam fortes cores, exaltando as rugas entre faixas de tinta de urucum. Além de um certo cheiro de cachaça no ar... 

Não era um jogo qualquer de futebol. Os índios jogavam bola.
Falavam em tupi-guarani. Xingavam e brigavam no campo em tupi-guarani.
Confesso que foi uma cena um tanto inesperada para a minha primeira visita a uma aldeia indígena em Bertioga, litoral de São Paulo a convite de um casal amigo que havia “adotado” um indiozinho.
Depois de passar pelo campo de futebol, onde o jogo rolava  em terra batida, um tortuoso e inóspito caminho veio vindo a seguir. Sem flores, apenas cercas com pedágios, sim, pedágios silvícolas clandestinos e um colégio depreciado pelo tempo a espera de recursos.
No final de tudo, pequenas ocas de onde saiam fumaça e crianças peladas que cheiravam a fumaça....
Nenhum sinal de pesca ou atividade qualquer. Os índios descansam a espera de ajuda.
E jogam futebol adoidados.
As mulheres fazem balaios pra vender na Rio-Santos. Vendem também helicônias vermelhas e amarelas para enfeitar os vasos dos turistas. Comprei um DVD com danças e cantos tribais para lembrar onde estava.
Mas o futebol estava vivo. Firme e forte. Porque sábado na Aldeia é assim.
As índias encontram os maridos no final da partida.
O futebol é para todos. Cacique e indiozinho no mesmo bate bola.
Pajé e as mulheres do Pajé na torcida tupi-guarani.
É o futebol do Brasil. Do porre do indiozinho que veste Nike.
Do 7 a 1 na cabeça. E de muita cachaça pra esquecer...

Porque a bola, caros amigos, a bola é democrática.
A bola rola sem distinção. Sem preconceito. Sem raça. Sem cor.
A bola é redonda. A bola é a aldeia. A bola é o mundo. 
Vasto, injusto e inexplicável... e de repente...
Gol da Alemanha.... 
 
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