quarta-feira, 25 de maio de 2016

O VENDEDOR DE MELANCIAS

 
                                                                                                   Foto: arquivo pessoal
                                                                          
A antiga Celso Garcia cortava todo o bairro do Brás até chegar no Tatuapé

e era basicamente assim:  larga e cinzenta, com centenas de carros, fumaça sufocante

e ônibus elétricos velhos e vagarosos.

Pelo menos essa era a visão de uma pré-adolescente de doze anos que todos os dias

tinha que enfrentar os perigos da avenida para chegar ao colégio, agora sem a ajuda da mãe.

Status de adulto. Prova de crescimento.

 
Mas tinha uma coisa que destoava daquele cinza tristonho da avenida.

Era um vendedor de melancias, que ficava na esquina do largo da Concórdia.

Era alegre e falante. Nordestino como tantos por lá.  As vezes cantava, as vezes assobiava

e cortava aquelas fatias de melancias verde-róseas, geladinhas, com um facão afiado

e grande habilidade . Pareciam perfeitamente refrescantes. Mas nunca ousei

comer um pedaço.

 
Além da falta de dinheiro própria de alguém de doze anos, imaginar parar numa banca

de madeira onde ficavam dezenas de homens recostados, uns trabalhadores, outros não,

além da falta de higiene que a minha família tanto ressaltava nos ambulantes locais,

seria uma ousadia impensável.  E se alguém me visse? Crime demais para uma garota

de doze anos. Mas aquelas melancias....

Bem, a Celso Garcia foi ficando cada vez mais caótica. Depois da implantação do corredor

de ônibus, tudo ficou espremido. Lembrava um curral urbano e cinzento.

Alguns retirantes que chegavam a São Paulo de trem, desembarcando na Estação do Brás,

por ali ficavam e não conseguiam empregos com carteira assinada.

 
Começaram a morar em cortiços e pensões. Muitos ambulantes então, instalaram-se

nas calçadas e vendiam de tudo, miçangas , relógios, churrasquinhos, hot dogs...

As vezes a polícia chegava e a correria começava já que a maioria não tinha licença,

nem perdão.

 
O largo da Concórdia não fazia jus ao nome. Todos discordavam, num mercado a céu aberto.

E na cabeça de uma garota de doze anos, era quase um pesadelo.

Mas o vendedor de melancias continuava sorrindo e as melancias...

...verde-róseas e geladinhas!

E foi numa tarde, na volta do colégio que vi a cena que parecia impossível...

Meu irmão mais velho, com seus 22 anos, vindo da faculdade, ao lado daquele

alegre vendedor e um pedaço de melancia na mão! 

Sai correndo em direção a eles com um senso de autorização familiar garantida

e perguntei:

-Posso comer um pedaço também?

 A resposta veio deliciosa: claro!

 
E  livre de todos os conceitos, imagens e proibições, saboreei ali, no largo,

aquele pedaço de melancia fresca até o verde final da casca.

Fartos e felizes, cuspimos irreverentes os caroços um no outro.

Afinal, comer melancia, na avenida Celso Garcia, entre ônibus, carros,

fumaça e ásperos trabalhadores,   

era uma baita transgressão!



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quarta-feira, 18 de maio de 2016

O GAROTO QUE ASSUSTAVA POMBOS

 
                                             
                                                                                foto: Water
 
Não era um garoto mau. Longe disso. Tinha amigos, jogava futebol, amava os pais... Mas tinha uma outra coisa: gostava de assustar pombos!

Corria enlouquecido em direção aos bichinhos até que largassem seus milhos e partissem em revoada. Depois, com o canto da boca, sorria, lançando um olhar saborosamente mau...

Menino como ele, perguntei certo dia porque gostava tanto de assustar os pombos, e sem pensar ele respondeu: - Não sei!
E era sempre assim. Assustava os pombos na rua, nas praças, no mercado. Onde estivessem. Sem saber por quê.

Vinte anos se passaram e aquele menino se tornou um homem de sucesso. Gerente, diretor, dono de empresa. Dizem que teve dois infartos e um AVC que lhe entortou definitivamente parte da boca. Mesmo assim prosseguiu firme e forte com sua dura rotina e os seus pés rasteando o chão.   
Nossos destinos se cruzaram novamente, no meu último emprego.
Era ele o dono da agência onde eu havia me empregado como redator.

Na última reunião da semana, pude ficar frente a frente com o “chefe”. De ouvidos atentos, porém com a impaciência de um general, ele escutou todas as idéias. As minhas e de mais uns cinco talentosos funcionários da agência. Parece não ter gostado de nada.

Num certo e exato momento, virou-se enlouquecido na cadeira e batendo com a mão na mesa gritou :
- saiam daqui agora e só voltem com novas idéias!
Depois sorriu com o canto da boca, lançando aquele olhar...
aquele olhar, saborosamente mau.

Todos partiram, feito os pombos, em revoada para suas salas. Menos eu. Saí direto para casa. No programa, um bom vinho, o meu CD do Pink Floyd e um final de tarde inteirinho para saborear com o meu filho.

Amanhã será outro dia. Talvez outras idéias? Ou um outro emprego...
O que vou fazer ainda não sei.
Mas sei, agora, por que aquele garoto assustava pombos.
Eles sabiam voar!

 
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quarta-feira, 4 de maio de 2016

E por falar em dia das mães...

 
A VITROLA...           

       E O PALHAÇO TRISTE

 

Cada móvel da casa da minha mãe traz uma lembrança e um tanto de  poeira...

Em seus 91 anos, pelos menos nos últimos cinquenta, ela tem conservado os mesmos
móveis, fortes e clássicos. Não por simples apego, mas talvez, porque cada um traga
em si uma história, além da frágil sensação do território seguro.

Na sala, por exemplo, tem uma rádio-vitrola. Móvel grande, todo em jacarandá, valvulado
e que ainda funciona e nos remete ao primeiro compacto simples que ganhamos:
selo vermelho, com a música Venus, do Shocking Blue e pouco mais tarde, um compacto
dos Beatles, com a maçã cortada ao meio e a música Revolution. Ouvíamos bem alto,
os 4 cabeludos que queriam mudar o mundo...

Depois, minha mãe ganhou um LP “Italianíssimo”, que rodava de manhã até de noite
e reforçava nosso sotaque italiano, próprio de uma família que nasceu na Moóca e cresceu
no Brás... Em cima da vitrola, uma estante com livros dos grandes filósofos da humanidade...

Lembrando, que depois de criar os filhos, Dona Olga quis estudar e entrou na Usp em
“filosofia pura”. Coisa pra poucos!

Os livros continuam na estante e são muitos. Agora, azuis enevoados.
Todos gastos e com capa pra lá de manuseada, além das anotações e sublinhados nas páginas internas, resultado de quem leu e releu inúmeras vezes cada um deles,
muito embora hoje, ela talvez não tenha muita noção de quem foi Nietzche...

Ah.. tem também as lindas e delicadas mesinhas da sala de estar, com as laterais e seus pés
fininhos e delineados, retrato dos anos 60 que enchem meu peito de inveja, de uma geração
romântica e rebelde da qual não pertenci. E tem ainda uma poltrona, berger, com um discreto
corte no tecido fino, escondido por uma almofada de veludo.

Mas o que mais me prende a atenção e me comove, além de todos os móveis da casa
da minha mãe, é o quadro do palhaço triste em cima do piano, no quarto da televisão.

Triste sim. O palhacinho pintado, de gola larga, tem um quase sorriso na boca
e uma melancolia imensa no olhos.

Lembra para mim, o doce-amargo da vida. Paralelo de minha mãe e seus 91 anos...
Lado a lado com a triste amargura de não caminhar mais com as próprias pernas, mas que
pinta o rosto todos os dias para nos alegrar e mostrar que seguir adiante, muitas vezes,
é uma arte.

Dona Olga , sempre,
                        sempre nos fará sorrir!!! 
                                
                                           foto: arquivo pessoal
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