quarta-feira, 25 de maio de 2016

O VENDEDOR DE MELANCIAS

 
 
         

A antiga Celso Garcia cortava o bairro do Brás até chegar no Tatuapé. Era larga e cinzenta. Com centenas de carros, fumaça e ônibus elétricos, velhos e vagarosos. Pelo menos essa era a visão de uma pré-adolescente de doze anos que todos os dias tinha que enfrentar os perigos da avenida para chegar ao colégio, agora sem a ajuda da mãe. Status de adulto. Prova de crescimento.

Mas tinha uma coisa que destoava daquele cinza tristonho da avenida. Era um vendedor de melancias que ficava na esquina do Largo da Concórdia.. Alegre e falante. Nordestino, como tantos por lá. Às vezes, cantava. Às vezes, assobiava. E cortava, com facão afiado e grande habilidade, fatias de melancias verde-róseas e geladinhas. Pareciam perfeitamente refrescantes. Mas nunca ousei comer um pedaço...

Além da falta de dinheiro, própria de uma menina de doze anos, parar numa banca de madeira onde ficavam dezenas de homens recostados, uns trabalhadores, outros não, era uma ousadia impensável! Além da falta de higiene e da poeira dos carros. E se alguém me visse? Crime demais para uma adolescente. Ah, mas aquelas melancias...

A Celso Garcia foi ficando cada vez mais caótica. E no final dos anos setenta, depois da implantação do corredor de ônibus, tudo ficou espremido. Mais gente e mais cinzas, empoeirando as enormes árvores que ainda restavam.

A maioria dos retirantes que chegavam a São Paulo de trem, desembarcando na Estação do Brás, por ali ficava e não conseguia emprego com carteira assinada. Começaram a morar em cortiços e pensões. Muitos ambulantes, então, se instalaram nas calçadas. Vendiam de tudo: miçangas, relógios, churrasquinhos, churros e cocada...
Às vezes, a polícia chegava e a correria começava. A maioria não tinha licença. Nem ao menos, perdão!

O Largo da Concórdia não fazia jus ao nome. Todos discordavam, no mercado a céu aberto. E, na cabeça da garota de doze anos, era um território hostil. Mas o vendedor de melancias continuava ali, sorrindo... E as melancias, verde-róseas e geladinhas!

E foi numa tarde, na volta do colégio, que vi a cena que parecia impossível... Meu irmão mais velho, com seus vinte anos de idade, chegando da faculdade, ao lado de um alegre ambulante, se fartando com um pedaço de melancia na mão! 

Sai correndo em sua direção, como quem pede autorização, e perguntei: - Compra um pedaço pra mim? A resposta veio num delicioso: sim!

E  livre de todos os conceitos, imagens e proibições, saboreei ali, no Largo da Concórdia, aquela grande lasca de melancia fresca até o verde final da casca. Terminada a aventura, cuspimos felizes os caroços um no outro! 

Afinal, comer melancia, na avenida Celso Garcia, entre ônibus, carros, fumaça e rudes trabalhadores, era uma baita transgressão!

 

                                              
 
 foto: Eduardo Martellota.
 
                      
 

quarta-feira, 18 de maio de 2016

O GAROTO QUE ASSUSTAVA POMBOS

 
                                             
                                                                                foto: Water
 
Não era um garoto mau. Longe disso. Tinha amigos, jogava futebol, amava os pais... Mas tinha uma outra coisa: gostava de assustar pombos!

Corria enlouquecido em direção aos bichinhos até que largassem seus milhos e partissem em revoada. Depois, com o canto da boca, sorria, lançando um olhar saborosamente mau...

Menino como ele, perguntei certo dia porque gostava tanto de assustar os pombos, e sem pensar ele respondeu: - Não sei!
E era sempre assim. Assustava os pombos na rua, nas praças, no mercado. Onde estivessem. Sem saber por quê.

Vinte anos se passaram e aquele menino se tornou um homem de sucesso. Gerente, diretor, dono de empresa. Dizem que teve dois infartos e um AVC que lhe entortou definitivamente parte da boca. Mesmo assim prosseguiu firme e forte com sua dura rotina e os seus pés rasteando o chão.   
Nossos destinos se cruzaram novamente, no meu último emprego.
Era ele o dono da agência onde eu havia me empregado como redator.

Na última reunião da semana, pude ficar frente a frente com o “chefe”. De ouvidos atentos, porém com a impaciência de um general, ele escutou todas as idéias. As minhas e de mais uns cinco talentosos funcionários da agência. Parece não ter gostado de nada.

Num certo e exato momento, virou-se enlouquecido na cadeira e batendo com a mão na mesa gritou :
- saiam daqui agora e só voltem com novas idéias!
Depois sorriu com o canto da boca, lançando aquele olhar...
aquele olhar, saborosamente mau.

Todos partiram, feito os pombos, em revoada para suas salas. Menos eu. Saí direto para casa. No programa, um bom vinho, o meu CD do Pink Floyd e um final de tarde inteirinho para saborear com o meu filho.

Amanhã será outro dia. Talvez outras idéias? Ou um outro emprego...
O que vou fazer ainda não sei.
Mas sei, agora, por que aquele garoto assustava pombos.
Eles sabiam voar!

 
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