quarta-feira, 27 de julho de 2016

SIMPLES

                                                                          foto arquivo pessoal
 
               Ele podia ter sido engenheiro como seu pai. Ou dentista como sua mãe.
               Poderia ter sido jogador de futebol, modelo fotográfico ou técnico
               de informática. Preferiu ser chefe da delegação de Hóquei no gelo.
              
               Ele poderia ter casado com a Fátima, sua namoradinha de infância
               que se formou em pedagogia. Ou com a Sandra, sua vizinha gostosona
               que arrastava um bonde por ele.
               Ou ainda com a Marizete, ótima em cozinha mineira e carícias sexuais.
              
               Mas preferiu Olenka, uma ucraniana com 3 filhos que mal fala português.
               Nada de calça jeans e camiseta. Nem ternos elegantes. Ele usava chinelos
               e boinas, shorts com polainas, e carregava uma grande mala de pele
               de carneiro que sempre o acompanhava.
 
               Instrumento preferido: oboé. 
               Filmes: os produzidos em Singapura.
               Sexo: terças-feiras de manhã, ao som de Hermeto Pascoal ou Igg Pop.
               Mas foi no dia em que completou exatos 65 anos de idade que ele atravessou
               a rua com passos firmes, entrou na padaria em frente e enfim, radicalizou :
               - Quero algo bem simples. Pão com manteiga, por favor!
              
               Foi preso porque estava nu.


*                  *                 *                    *                 *                 *                *                *

                 E os ganhadores deste mês do livro infantil "Era Uma vez uma cosinha" foram:
                 Joaquim Ordonez e Monica Ribeiro. Mês que vem tem mais. Escreva "Eu quero"
                 no seu comentário e boa sorte!

quarta-feira, 20 de julho de 2016

O POETA CONGELADO

                                   
                     É incrível como, às vezes, o inverno bate gelado dentro da gente.

                     Mais que no corpo, o inverno chega à alma. E é paralisante.

                     O projeto que empaca. A compra da casa que não sai. A notícia que não chega.

                     O dinheiro que não entra. O computador sem conserto que, derradeiramente
 
                     trava.
 
                     Parece até que as coisas combinam. Tipo um complô. Como as lâmpadas

                     que queimam todas ao mesmo tempo. Quando é inverno na alma, não há
 
                     quebras, apenas o silêncio que congela. O poeta, assim, fica mudo.

 
                     E atire uma pedra nesse lago congelado quem já não teve o seu inverno na vida.

                     Inverno de idéias. Inverno de amores. Inverno de grana e paixões.

                     Tempos onde andar pra frente é o que nos resta.

                     Os melhores planos simplesmente não acontecem. E a aposta da quina não
 
                     chega nem perto de um dos números apostados... Zero!

 
                     Foi num desses invernos da alma que resolvi plantar uma árvore no jardim

                     do meu quintal.  Não iria gastar nada. Só água e tempo. E em poucas semanas

                     teria flores para apreciar.

                    Além do mais, seria muito bom ter o que fazer às manhãs até que o emprego
 
                    chegasse, o amor batesse a porta ou um cachorro me fizesse correr mais
 
                    rápido....

                    Depois de várias semanas sem florescer, voltei ao jardineiro e perguntei o que
 
                    acontecia. Porque as flores não vêm? Ele respondeu: você plantou uma
 
                    quaresmeira!

                    Ela ainda está se preparando. Tem tempo certo de florir.

 
                    Voltei para a casa, meu delicado casulo...

                    recolhidamente esperando,

                    até meu coração de poeta

                                                   descongelar...


*                     *                      *                       *                         *                        *                      *
                    "EU QUERO" !!! Na semana que vem tem mais dois ganhadores do livro
                      infantil "Era uma vez uma coisinha". Ainda dá tempo de concorrer...
                      Escreva "eu quero" no seu comentário e boa sorte!!!

quarta-feira, 13 de julho de 2016

O ÚLTIMO QUADRO

                                                                                            foto: arquivo pessoal  
            Mássimo é um desses amigos que a gente conhece por acaso e leva pra sempre.
            Com um sotaque argentiníssimo, ele ligou para emissora onde eu trabalhava
            e perguntou se não gostariam de um programa de tango na programação.
            Com um sorriso incontido, expliquei que aquela era uma rádio pop e
            um programa de tango iria destoar... 
            Rimos os dois e ele completou, bem humorado: - Si, claro! Tentei. E fracassei!
 
            Simpaticamente, disse que ele deveria continuar tentando. Em outro veículo,
            quem sabe. E completei com a intimidade daquela amizade instantânea: 
            Mássimo, você é o máximo! Nunca esqueça disso...
            Desde esse dia, nos tornamos bons amigos.
 
            Mássimo me ligava de três em três meses, para não importunar, como ele dizia.
            E aos poucos foi me contando sua vida...
 
            Que tinha setenta e cinco anos. E foi muito bonito quando jovem. Teve todas
            as garotas que desejou.  Mas não teve “aquela”. A companheira de toda a vida.
 
           Contou que foi diretor de arte de uma grande agência de publicidade em São Paulo.
           Ganhou muito dinheiro e que deixou tudo em bares, hotéis e diversão.
           Estava pintando quadros numa pracinha de artesanato para sobreviver.
 
           Finalmente, contou que teve um filho que morava na Argentina. Mas que não
           o viu crescer e nem seguiu seus passos. Que ligava de vez em quando, sem nunca
           ter dito realmente que o amava. Talvez seu maior e verdadeiro fracasso...
 
           Depois de ouvir todas as histórias, eu sempre terminava com a mesma frase:
           Mássimo, você é o máximo! Nunca esqueça disso...
           Ele dava gostosas risadas e se despedia menos solitário.
 
           Mas teve um dia que eu pude realmente ajudar o meu amigo.
           A oportunidade tinha chegado.
           Um teste para dublar a voz de um senhor, em espanhol. Perfeito! 
           - Mássimo, indiquei você! Vá lá e faça o teste!
 
           Alguns meses se passaram e o Mássimo me ligou, finalmente.
           Com a voz fraca e tristonha...
           - Não consegui acompanhar o texto. Perdi o rítmo, perdi a leitura,
            perdi a voz... tentei e mais uma vez, fracassei!
 
           - Calma Mássimo, era só um teste de dublagem. Não é a vida!
           - Você não está decepcionada comigo???
           - De maneira nenhuma!
 
           Um mês depois dessa nossa conversa, Mássimo foi me visitar no trabalho
           e enfim, pude conhecê-lo pessoalmente.
           Deve ter sido muito bonito mesmo. Embora velho, conservava o porte e o par
           de olhos azuis carismáticos. 
           Trouxe de presente um quadrinho que pintou e que guardo até hoje.
 
           Disse que minha confiança tinha sido importante e que ele tinha tomado
           a maior das decisões: iria voltar para a Argentina. Procurar o filho. E retomar
           a parte da vida que deixou pra trás...
 
           Nunca mais soube do Mássimo.
           Um vizinho contou que teve uma séria pneumonia, dias antes de viajar
           e foi parar no hospital.
 
           Prefiro pensar que ele está lá, na Argentina, ao lado do filho.
           E que aquele, não foi o último quadro que o Mássimo pintou.
           Qualquer hora, ele vai ligar...
 
 
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             "EU QUERO"!  Pois é, o pessoal continua querendo o livro infantil "Era uma vez
               uma coisinha" de presente no final deste mês. Muito bom.
               Escreva "Eu quero" no seu comentário e concorra! Serão dois sorteados em julho. 
 
          
 

quarta-feira, 6 de julho de 2016

EM CIMA DAQUELA PEDRA...

 
                         
 
Talvez precisasse de um olhar mais amigo. Talvez, mais disposição.
Acontece que minha alma se inquieta quando vejo certas esculturas ou monumentos encravados na paisagem da cidade. Pode ser mau humor. Ou uma inveja tola, por não saber moldar um simples boneco em papel marchê...
 
Mas acontece que, mesmo gostando da arte dos homens, a arte da natureza me parece tão absoluta, que ambas não deviam disputar o mesmo espaço. Uma em cima da outra? Nem pensar...
 
Não é somente pelo senso estético, pois meu “monumental” conhecimento neste campo se resume em distinguir os olhos e o nariz de um Aleijadinho e o vigor dos bustos de Rodin. É muito pouco. Aos artistas, então, peço perdão...
 
Mas é, com certeza, pelo local onde foram colocadas. Parecem estar sempre onde não deveriam estar. Lá no Itararé, em São Vicente, quando olho a pedra da feiticeira, rústica e milenar, cravada na areia e ungida pelo mar, vejo sobretudo a estátua de ferro, cimenticolada, bem em cima da pedra, a me torturar... É bonita! Mas, não tinha outro lugar?
 
É assim também com o peixe gigante na chegada da cidade de Santos. Mistura dúbia de sentimentos... De um lado, o símbolo da volta, a alegria do retorno para o lar- mar. Do outro, a presença de um peixe, fora da água, entre vias expressas e carros a passar... É lá que deveria estar? Não tinha outro lugar?
 
Ah... Tem também as cabeças gigantes da rotatória de Praia Grande. Sinto poder e medo quando as vejo. Parecem bem, ali, em vigília... Mas ficariam melhor em Brasília!
 
Pois é assim que vejo. Muitos dirão que a arte não é para ficar restrita aos museus. Deve estar integrada ao urbano. Minha cabeça concorda. Meus olhos-coração, às vezes, não.
No fundo, imagino sempre, o Deus-criador olhando lá do alto para a estátua colada na pedra da feiticeira e pensando:  Tinham que colocar justo aí em cima?

 
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                                           Foto gentilmente cedida por Emilio Pechini
 

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                    EU QUERO!!!! ... e a promoção continua!!! Neste mês mais dois livros infantis
                   "Era uma vez uma coisinha" para sorteio. Escreva  "eu quero" no seu comentário
                    no blog e boa sorte!
 

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