quarta-feira, 31 de agosto de 2016

O FIM DA COCADA

                                                                                                  foto: Veja/SP
             
         Dona Jana era baiana, das boas. Toda redonda. Peito boludo e traseiro avantajado,

         desses que levantam a saia branca quando anda. Vendia cocada na praça da Biquinha.

         Não tinha quem não a conhecia. Cliente então, noite e dia!

         Toda de branco e fitinha do Bonfim, sabia cantos em nagô e pedia sempre aos orixás

         que abençoassem suas mãos divinas e cada filho novo, que todo ano vinha.

         Foram cinco doces mulatinhos que ela foi fazendo, junto com o coco queimado,
 
         tradição e segredo.

        O tempo, porém, foi passando. O cabelo da Jana branqueando e a pracinha que era

        doce, foi se acabando...

        Pulando de canto em canto e com o coração sangrando, Dona Jana foi aos poucos

       se desmontando... Agora idosa e magrela, viu indo embora toda sua clientela....

       Nem a tradição sobreviveu!

       Não veste branco e não tem mais fitinha.

       Brigou com o orixá e com as vizinhas.

       E nem tem mais doces na pobre Biquinha!

       Aonde ela foi parar?

       Dona Jana agora tem whatsapp e montou um web site.

       E por pura ironia, fica em frente de uma academia,

       quem diria...

       vendendo cocadas diet!


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                   E quem ganhou o livro infantil " Era uma vez uma coisinha" foi...
                   Fernanda Gardino!
                   Mês que vem tem mais sorteio!  Escreva "Eu quero"
                                                                       no seu comentário e boa sorte!

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

EU TÔ NA LANTERNA...

                                                                                            Foto: Tony Lamers
            Penha fica no litoral catarinense e conserva, ainda, a simplicidade
            que encanta.
            Praias belas e rústicas. E recantos de pescadores...
            Foi lá, num tímido farol noturno, que um misto de solidão e música
            ecoou nos meus ouvidos. Uma das minhas letras favoritas: lanterna dos afogados!
            Confesso que sempre tive dúvidas se o local descrito por Herbert Viana
            era real ou uma metáfora usada pelo poeta, simbolizando uma luz no fim
            do túnel de quem está perdido num mar de incertezas.
            Só mais tarde descobri que a “lanterna dos afogados” é nome de um bar,
            no livro Jubiabá de Jorge Amado. Lugar onde as mulheres dos pescadores esperavam
            seus maridos, com lanternas nas mãos, na ânsia de ajudá-los a achar o caminho de
            volta.
            Sofridas e desesperadas, elas mantinham acesa a esperança de ver seu amor voltar...
            Quase nunca voltavam.
            E me vi assim, por um minuto, ali, naquele farol noturno, esperando
            por uma embarcação...
            Medo e esperança, contraditórios e presentes.
            E foi nessa delicada e instável gangorra,
            inspirada pela poesia e a luz, de Herbert,
            que cantei baixinho...
            ... vê se não vai demorar!!!.

 

 

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                                 Na semana que vem , tem mais um sorteio do livro infantil
                                 "Era um avez uma coisinha". Escreva "Eu quero" no seu comentário
                                                                 e boa sorte!!!   

domingo, 21 de agosto de 2016

E SE FOSSE "QUASE"....

                                
          É certo que a Rio-2016 será lembrada pelo que fizeram os monstros

             olímpicos: Bolt, Phelps, Ledecky, Biles... Foi impressionante!

             Como é certo que o feito dos medalhistas brasileiros ficará

             marcado nos livros e dentro de nós, nessa Olimpíada pra lá de especial.

             O que dizer dos “Silvas” e seus pódios nos primeiros dias?

             Os surpreendentes Felipe Wu, Robson Conceição e Tiago Braz,

             desconhecidos, até então, da maioria dos brasileiros. As meninas da vela,

             com DNA vencedor e Isaquias com apenas o puro e bom sangue nordestino

             nas veias e um recorde histórico nas mãos.

             Além dos velhos e caros conhecidos Diego Hipólito e Arthur Zanetti que pratearam

             na ginástica, junto com o bronze do "Nori" e do final de semana mágico, em êxtase,

             provocado pelas equipes masculinas do futebol e do Volei. Medalhas suadas,

             merecidas, que serão para sempre lembradas!

             Até mesmo os atletas que não medalharam, terão breve e leve menção

             na história da Rio-2016. Fratus e Tiago Pereira reconheceram que não

             poderiam ter ido além. Um sexto e sétimo lugar foi o que restou.

             O Caio da marcha foi destaque em quarto. A Flavinha, um espetáculo em quinto.
           
             Assim como o futebol feminino da incrível Marta, que tanto lutou e quase
 
             chegou lá. Perdeu o bronze. Ganhou definitivamente nossos corações!

             Mas o que me incomoda, desde os tempos em que disputava competições

             estudantis é o “quase” das quartas de final. Aquele que não leva a lugar

             nenhum.

             O quase das meninas do volei, por exemplo. Ganharam todas, sem perder

             nenhum set na primeira fase e quase ganharam das chinesas! Quase...

             Quase chegaram na semi. Quase... Poderiam ter sido campeãs,

             terceiro, quarto lugar, sei lá. Mas foram “quase”, essa linha tênue entre

             o sucesso e a frustação.

             E a história é cruel com o quase. O quase não ganha registro. Só fica

             na memória de alguns que viveram de perto e vão argumentar, talvez, um dia.

             O quase é terrível...

             E quem de nós já não teve um quase na vida! Quase deu certo aquele emprego,

             mas escolheram outro. Quase que peguei aquele ônibus, mas o motorista não

             me viu.. Quase esbarrei em um grande amor , mas nem fiquei sabendo...

             Pois é, ganhar e perder é do jogo, mas o quase é cruel.

             Imagina se o Neymar perde aquele penalti e a gente, mais uma vez,

             “quase”...

              Imagina!

 
*                   *                    *                      *                      *                    *                    *        
              

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

CHORA TEREZA

 
                    
              Helena chorou demais. Chorou até criar sulcos. Chorou pelas ruas,
              pelos cantos, pelas praças, pelos cotovelos, até não poder mais.
              Chorou até secar e, seca e muda, voltou para o seu lugar. Depois foi 
           
               a vez de João. Chorou pouquinho, chorou miúdo.Um simples chorinho.

              Tímido e manso. Doído. Mais chorado do que Cris e mais contido.
              Menos convulsivo. João chorou pouco, chorou mais sal do que água.
              Chorou do seu jeito, choramingando lento.
              Marina já foi diferente. Chorava e interpretava e enquanto interpretava,
              mais chorava. Chorava e sofria, mas não sofria como Sofia, que fingia
              que não chorava. Sofia continha a lágrima contida, ainda não chorada.
              Lágrima embalsamada, no canto do olhar, petrificada, que não cedia.
              E para Sofia, só uma enchente despertaria a serena e dolorida mágoa.
              Lágrima presa, quase calada, mas não evaporada como a de Olívia,
              que mal se via. Lágrima fria, vazando pra dentro, correndo pro peito,
              chorando sem jeito, sem gesto, sem gota, sem gosto. Chorando em
              protesto, sozinha, no chão da cozinha.
              Choraram todos, os mais ardentes, os mais modestos, os indecentes
              e os honestos. Chorou Pedro, o rico, chorou Mané sem braço.
              Chorou José com orgulho, de óculos escuros. Chorou Otávio na fuga.
              Chorou com medo porque chorou cedo. Chorou Dolores na chuva.
              Chorou tudo que podia. Sabia que confundia a água com sua dor.
              Chorava por amor.
              Não era assim com Lia que chorava de alegria. Chorava porque
              queria, pois se não chorasse, explodia, com toda sua emoção.
              Então foi a vez de Tereza. E Tereza não queria saber de chorar...
              Pra dentro ou pra fora, calada, angustiada, no centro da sala ou
              debaixo da escada. Tereza não chorava ...
              - chora Tereza, chora! 
              Tereza em cima do muro. E Tereza não chorava.
              Tereza com os olhos no mundo. E Tereza não chorava. Teve que dar
              dois filhos. Morreu seu pai, sua mãe, sua avó. Seu marido tinha uma
              amante que roubou tudo que lhe pertencia. E nada de Tereza chorar...
              De raiva ou de ódio, de dor ou de amor...
              - chora Tereza, por você, por nós, por favor!
              E Tereza, tão somente, sorria.
 
           *               *                *                   *                   *                    *                
                Vamos lá! Ainda tem livro o infantil "Era uma vez uma coisinha"
                para sorteio este mês. Escreva  "Eu quero"
                no seu comentário e boa sorte!   

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

DE CARROÇA NA AUGUSTA

                                                         Ana Persona/ Lady Augusta/Flinckr/Domfiori
 
Era uma noite fria e chuvosa. Típica de São Paulo. E eu ali, na Rua Augusta, bem perto da Paulista, à espera do trólebus, antigo ônibus elétrico, espremida entre carros, buzinas, guarda chuvas e um bocado de autocompaixão.
De repente o sinal se fecha e tudo em mim, vira um retumbante silêncio. Ouço apenas e claramente os ecos do tilintar dos cascos dos cavalos que vem se aproximando...
Mulata e Ferrugem. Eram os nomes dos animais que levavam a rústica carroça de meu avô, abarrotada de sacos de cereais para vender na feira. 
Uma pequena feira, de sábado, na Avenida Paulista, endereço nobre dos casarões e dos barões do café. E o dia começava às três da manhã... Junto com meu avô, ia um ajudante e um lampião para iluminar a escura e íngreme Rua Augusta.
Às vezes, o peso era tanto, que era preciso descer da carroça para poupar os pobres cavalos. Ferrugem e Mulata trabalhavam duro, como meu avô. Ganhavam mais que a comida, afagos e gratidão.
E na hora da singela feirinha, aqueles alegres comerciantes transformavam a avenida em festa, com suas frases rimadas e largas risadas. Perto do fim, já início da Consolação, grandes árvores e mata virgem completavam o antigo cenário. Sem carros, buzinas, poluição... 
De certo meu avô iria gostar de ver os artistas de rua, bandas de música e ambulantes, devolvendo à avenida a caminhada dominical, a antiga alegria e aquela feira-moderna geral.
O sinal abriu. O ônibus elétrico se aproxima...
Subo rápido e, intuitivamente, olho pelo vidro de trás...
Nesse instante, feito um raio lancinante, o vulto da carroça
passa num segundo de emoção... Mulata, Ferrugem e meu avô com seu lampião na mão! Ilusão?
Deu um breve sorriso, um piscar de olhos e um aceno com a mão! Depois fez a curva fechada na primeira picada e sumiu.
O tranco do trólebus me fez voltar...
Outro tranco. Agora tudo volta ao normal. A chuva , o frio, os carros e as buzinas...
Menos meu coração, que continuou batendo,
naquele galope ancestral...

 
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domingo, 7 de agosto de 2016

OLIMPÍADA, DO PESADELO AO SONHO


                    De repente me vi na Vila Olímpica, dentro do prédio da Austrália,

                    consertando todos aqueles encanamentos que vazavam,

                    quando alguém gritou: Fire! 

                    Desci pelas escadarias assustada junto com a toda a delegação, malas,

                    cangurus de pelúcia e fui parar no térreo onde repórteres estrangeiros

                    incrédulos, avisavam que a rampa de acesso à Marina da Glória havia

                    ruído com o vento, além do lixo que ainda permanecia na baia da Guanabara!

                    Mais repórteres chegavam, desta vez brasileiros, e nos contavam que Varejão

                    não viria mais para os Jogos e que Fernando Prass havia quebrado mesmo
 
                    seu cotovelo....

                    Acordei em sobressalto e bem na hora da cerimônia de abertura.

                    Era uma mistura de querer e não querer, até a festa começar...

                    E como estava linda. Paulinho e o hino. Gisele, linda e cheia de graça.
 
                    Benjor levantando a galera. E teve Chico, Jobim e as escolas de samba.
 
                    Zeca, Caetano, Gil e Anita trazendo a juventude, camuflada de MPB...

                   Além de duas leves porradas legais: o voo do 14 Bis e o aquecimento global.

                   Talvez aí, o legado, mais forte da olimpíada brasileiras.

                   Mas confesso que foi na hora que o Vanderlei entrou no Maracanã para acender

                   a pira, o meu coração espremeu feito bagaço.

                   Ninguém mais que ele encarna o “ser” olímpico. Foi do pesadelo ao sonho.

                   Ganhou ali, naquele momento, a sua medalha de ouro. Aquela...

                   Esfreguei os olhos para que ninguém percebesse o tamanho da emoção.

                   De verdade. Na veia.

                   E agora? Depois das críticas e ironias. Depois de achar que não era o momento

                  certo para esses Jogos aqui em terras tupiniquins.

                  Lá estava eu, completamente entregue à emoção! Medalha de ouro em

                 derretimento cardíaco! 

                 Agora só falta o Neymar, repleto de firulas, fazer um golaço e eu dançar

                 aquela dancinha terrível, junto com ele, na frente da televisão...

                 Por que desse jeito? Porque somos todos, um pouco de Brasil iá iá...

                que sofre..... mas canta.... e é feliz, feliz... Feliz!...

                 Vai entender gente como a gente.

 
*                     *                      *                        *                        *                        *                     *         

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

EMPURRA ESSE TREM...

              
              Ele não passava de 30 km por hora...

              Essa era a velocidade máxima do trem que ia de Tiradentes a São João Del Rei.

              Repleto de turistas, celulares, lap tops e uma cordialidade incomum, registrada

              especialmente em período de férias... 

              A estrada era bucólica. Vaquinhas aqui e ali, espalhadas pelo pasto verde

              das fazendas... E o chacoalho dos vagões, vagarosamente, dando o ritmo ao

              sonolento e reconfortante passeio.

              Quarenta minutos naquele trem pareceram uma eternidade. Pra falar a verdade,

              uma eternidade entediante. Até que o trem chegou ao seu destino.

              Um breve passeio pela bela São João Del Rei, com visita ao museu, além do

              caloroso almoço mineiro, nos deram vigor necessário para a viagem de volta.

              De volta à Maria Fumaça. De volta ao velho trem...

              Retornamos enfim a Tiradentes. E dali não havia mais trilhos. Só uma porção de terra

              no ponto final.

              Pessoas desceram alegres e falantes na estação, com seus celulares em punho.

              Preparavam-se para registrar o show. E eu que nem esperava por aquilo!

              Eram cinco homens. Operários. Com força animal. Músculos rijos e suados.

              Começaram a girar nos trilhos, em um círculo, a pesada locomotiva que puxava

              os vagões. Era o giro do trem. Cento e oitenta gráus... Incrível, arcaico, fantástico! 

             Terminado o belo e cansativo movimento de inversão, finalmente, o trem ficou 

             no sentido contrário. Destino de mais uma viagem de volta, rumo a Del Rei.

             Naquele momento, minha cabeça viajava em repetitivos vaivéns...

             Não o vaivém eterno das ondas. Largo e infinito!

             O vaivém curto. Do trem Del Rei. O vaivém da vida!

             Quando não temos mais trilhos pra seguir em frente.

             Ah... se a gente pudesse virar, com toda força, a nossa velha locomotiva

             e fazer a viagem de volta, lentamente, olhando tudo que foi deixado no caminho ...

             E então, no ponto de partida, pudesse comprar um outro bilhete...

             E embarcar novamente. De carro, táxi, avião, sei lá...

             Algo que saia dos trilhos.

             E nos leve além !

 
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                    Tem mais sorteio do livro infantil "Era uma vez uma coisinha"
                    no final de agosto.
                    Escreva "Eu quero" no seu comentário e boa sorte!!!