quarta-feira, 28 de setembro de 2016

É NA RUA JAVARI?

 
                                                                                         
Foi desse jeito. Vendo um jogo de semifinal da Champions League na tevê, com mais de cinquenta mil torcedores no Camp Nou, que minha mãe, do alto dos seus oitenta anos, me perguntou: onde é esse jogo? É na rua Javari?
 
Respondi carinhosamente que não, enquanto invadiam minha alma, as doces lembranças da Moóca antiga e em minha boca, podia sentir a doçura dos cannolis que só lá, na Javari, saboreei. Meu avô tinha uma venda colada ao Estádio, chamado Rodolfo Crespi. Campo pequeno, mas com uma arquitetura pra lá de charmosa, que lembrava os estádios da Inglaterra.
 
A venda era de secos e molhados. Na verdade, minha avó era quem fazia de tudo. Do famoso sorvete de ameixa, às tradicionais alheiras portuguesas que ficavam penduradas defumando e dando ar de empório antigo ao local.
 
O meu avô também ajudava... Tocava bandolim em frente a porta e nos domingos à tarde, assistia ao jogo do Juventus! E ele tinha uma maneira bastante peculiar... Colocava uma escada e subia na parte de trás da casa, numa espécie de laje, onde aprumava sua cadeira e sentado ao contrário, com sua camisa grená, torcia pelo “Moleque Travesso”. E o moleque adorava ganhar dos grandes, em especial do meu timão!

Era a grande diversão do vô Henrique e assunto pra toda semana na venda. Nunca perguntei se ele chegou a ver o famoso jogo entre Santos e Juventus, onde Pelé fez aquele que foi considerado o gol mais bonito de sua carreira, com uma sequência de três chapéus e toque de cabeça pra cima do pobre goleiro Mão de Onça.
 
Mais de duzentas mil pessoas disseram que estavam lá naquele domingo à tarde, na pequena Javari. Mas o meu avô, ele sim, deve ter visto...  Lá no telhado, e de camarote!
 
Por isso tudo, acho que minha mãe estava certa. Nada de Camp Nou, nem Champions League! Jogo bom, de futebol, aos domingos... Jogo duro de verdade e com time pequeno aprontando pra cima dos grandes, é só na Javari mesmo!

E os cannolis continuam por lá e de tempos em tempos invadem minha boca com doces lembranças.
Qualquer hora mato esta saudade!

 
           
 
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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O QUE ERA DOCE...

         
     
Parques de diversão sempre me dão um certo ar de tristeza. Brinquedos envelhecidos, mulheres com filhos e sem marido, casais e seus descaminhos e o bate-bate vão dos carrinhos...
A culpa deste sentimento talvez seja de Gilberto Gil, com seu lindo e trágico Domingo no Parque. Ou talvez, daquele sorvete que gelou meu coração...

Só sei que são amargas as lembranças de duas maçãs do amor, largadas no chão do velho parque da praça, sem diversão.  

Primeiro chegou a namorada. Elegante e alinhada. Com cabelos e unhas que custaram toda a tarde...  Depois, o namorado, em total desalinho. Cabelo de embaraço, camiseta de atleta e um torpe chinelinho.

O amor já estava por um triz. Mesmo assim, ele comprou duas maçãs do amor, na esperança de um final feliz!

Sentaram-se no banco ao luar...
Poucas palavras ele dizia. Ela falava sem parar. Ele tremia. Ela começava chorar.
Misturavam gestos e fúria, com fortes mordidas na maçã fria e dura.
Havia um quê de medo, ciúme, traição...  
E no “grand finale”, duas maçãs alçadas ao chão!

A seguir, os ex-amantes, partiram para a roda gigante...
Gira e roda. Roda e gira... E no sobe e desce, o amor termina!
A namorada em prantos sai do brinquedo. O namorado vai embora mais cedo. Ela disfarça e retoca a pintura. Ele já pensa em nova aventura...

Adiante, só o banco na praça fria.
No chão, os palitos jogados. Um pra cada lado!
E o líquido vermelho-sangue, que ainda escorria...
....................................

Mas não ligue não!
Amanhã vai ter feira, vai ter construção...
Outras maçãs... e outros amores virão!


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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

AONDE VAMOS PARAR?

 
                                                                                            Foto: G1.com

             Sempre gostei de ver o mar em fúria.

             Uma mistura de medo e contemplação.

             As ondas grandes, batendo na mureta da praia e explodindo em nuvens

             brancas de água e espuma, sempre deram uma espécie de vigor no meu

             íntimo, como se revirassem alguns sentimentos estancados...

             Dessa vez, na ressaca da Ponta da Praia, foi mais violento.

             Invadiu a avenida, inundou as garagens dos prédios, arrastando carros e

             quebrando, enfim, todas as amarras, muros e previsões.

             O mar em fúria. Culpa, não se sabe ao certo, se da natureza, de vários fatores

             juntos de uma só vez ou da ação contínua do homem, que ergue e destrói

             coisas belas...

             Acontece que mexeu com tudo. No fundo de todos nós.

             E o barco do pescador, “Gênesis”, veio do nada, e parou no caos. Sem cais.

             Fico imaginando a pequena embarcação, naquele oceano incontido e revolto,

             jogando de um lado para o outro, sem cordas, sem rumo e sem direção.

            Depois, a forte batida. E juntos, muro e barco, quebrados...  o que restou

            da ressaca.  

            Certos finais de ciclo na vida da gente, são parecidos.

            Quando ficamos também à deriva...

            Ondas gigantes de acontecimentos nos arrastam e então soltamos as rédeas

            em meio ao turbilhão.

            Alguém disse, numa canção, que durante o nevoeiro, o velho marinheiro

            leva o barco devagar. Mas na fúria dos mares, não. Ela não nos dá a calma

            de pensar.

            O nosso barquinho segue então, frágil, sem comando,

            sacolejando corpo e alma. Gênesis, em sua agonia, rumo ao apocalipse.

            E tudo que fazemos é nos deixar arrastar, sem saber,

            quando e aonde vamos parar...

            Que ressaca!


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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

PAREI, EM NEW ORLEANS!

    
         Imagine um sonho louco. Anárquico.
         Coloque um bocado de jazz, lojas que vendem bonecos para vudu,
         cortejos funerais pelas ruas e comidas apimentadas, além de lixeiras
         abarrotadas de copos e papéis. Agora misture tudo por alguns minutos
         e acredite: New Orleans é mais que isso.
         Quando visitei a primeira vez o French Quarter, o quadrilátero do famoso
         bairro francês, recheado de lindas casinhas e suas doces varandas floridas,
         não imaginei o tamanho do choque cultural que viria a seguir...
         Avessa ao padrão americano de beleza e organização, em New Orleans,
         muitas coisas não funcionam bem. Estacionamentos com filas. Máquinas
         de gelo que só acionam com pancadas. Gente bebendo pelas ruas.
         Muitos copos e papéis no chão.
         Ah, mas ouve se blues e jazz em todos os cantos! E como é bom...
         A vontade que dá é de entrar em cada pub daqueles e pedir um copo
         de água só para ouvir as vozes nativas e melodiosas ao som dos velhos
         instrumentos.
         E nas esquinas, sentados no chão, artistas tocam por trocados...
         Foi nessa parafernália, bem no meio do Mardi Grass, o “carnaval” americano,
         que vi famílias tradicionais com seus filhos pequenos em charutarias
         e sex shops. Comportados executivos espiando mulheres nuas atrás de biombos.
         Sem falar do “hurricane”, uma bebida azulada que exala fumaça e deixa mais
         inebriante aquelas ruas repletas de pecados....
         E foi para fechar com chave de ouro a nossa visita, que um velho e alegre
         senhor,  gritou bem no meio da rua:
         - “ Show me your tits! I’ll give you a bead”!
         Traduzindo para o português: mostre os seios e eu te dou um colar!
         Então ali, no asfalto e nas varandas, lindas mulheres sorridentes começaram
         a levantar suas blusas para mostrar os seios fartos e nus, em trocas de simples
         colares de continhas coloridas...
         Voltamos para casa em silêncio. Estremecidos.
          Imaginamos nunca mais voltar àquele local onde o mundo parece ter
          parado ou, pirado.
          Nada disso.
          Voltamos no dia seguinte. Agora com roupas extravagantes.
          Compramos hurricanes e seguimos curiosos e fascinados pelas ruas do
          French Quarter...
          Afinal, sair do sério, uma vez na vida, é libertador!!!
 
 
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