terça-feira, 29 de novembro de 2016

O ÚLTIMO VOO...

      
                    E o campeonato não terminou...
                    E todos perdemos. Final terrível e inesperada.
                    Lances derradeiros. Não da partida. Do avião. Do jogo, da vida!
                    E a gente leva um chute na cara.
                    Vem o gosto do metal retorcido no chão e a sensação do patético!
                    Tantas lutas travadas durante tanto tempo, esperando o momento
                    final da conquista!
                    Mas não. Nunca sabemos quando será o último voo...
                    Jogadores, jornalistas, famílias inteiras alçadas no ar... Sem chão pra pisar.
                    Só restou a cordilheira. Montanha de sangue e lamentos.
                    Um campo sem jogadores. Microfones sem vozes. E uma tristeza espalhada
                   
                    pelos gramados do mundo!
 
                    Quem sabe agora, lá, na grande área do desconhecido, existam lances mais
 
                    felizes, em campos menos cruéis, onde a Chape consiga terminar o seu grande
 
                    campeonato.
 
                     E que ela, finalmente, jogue a final dos sonho de todos nós!
                   
                    Porque nunca sabemos quando e aonde será o nosso último voo... 
    
    
 
 

*                         *                              *                             *                         *                        *

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

AQUELE FIO BRANCO...

  
          Acordou às oito e meia, como sempre.
          Escovou os dentes, como sempre. Olhou no espelho, como sempre.
          E sorriu... para ficar mais engraçadinha.
          Mas bastou encontrar um fio de cabelo branco e o mundo da Juliana veio abaixo.
          Feito um casaco de chumbo grosso em suas costas. Justo no dia que completava
          trinta e cinco anos.
          Um cabelo branco? Reparou também uma ruga de expressão mais
          acentuada na boca. Do lado direito. Lembrou da dor na lombar da semana passada.
          E junto com todo o pacote, a carta do plano de saúde que chegou com um reajuste
          quântico. Meu Deus, por que?
          Imediatamente pensou no seu aniversário e que, ao invés das cervejas,
          seria melhor congelar seus ório de 325 anos e que teria que congelar e lembrou da dor na lombar da semana passada. m suas costas. vulos, caso quisesse engravidar após os quarenta,
          já que nem namorado tinha!
          Saiu de casa com a adrenalina saltando pelos poros e decidiu não ir de táxi.
          Iria a pé até o metrô para demorar mais tempo e seguir ruminando o acontecimento.
          Não adiantou muito. Em cinco minutos estava dentro do trem e as estações iam
          passando... incrivelmente velozes... como as estações do tempo. E da vida.
          Era tudo que não precisava. Ansiedade e envelhecimento precoce. Bem no dia
          do aniversário!
          Juliana olhava toda hora no vidro da janela do metrô para ver se via o seu cabelo
          branco. Nem ela, nem ninguém via. Estava lá, escondido e real.
          Chegou ao trabalho politicamente feliz. E deu de cara com o Marcos...
          aquele que “podia ser que fosse algo mais”, mas nunca foi.
          Não era uma paixão, ela sabia. Mas era tanta parceria, tanta coisa em comum...
          Juliana resolveu pela primeira vez dar um sorriso e um viés de esperança.
          No final da tarde, o bolo de sempre. A festinha da empresa, de sempre.
          Com as piadas, de sempre...
          Quando enfim chegou em casa, exausta, Juliana tirou os sapatos e foi olhar novamente
          o seu cabelo branco no espelho. Agora mais serena, olhou-o como um presente.
          Sorriu... para ficar mais engraçadinha.
          E antes de sair com os amigos para festejar, pegou uma caneta e preparou a lista:
          Matrícula no curso de dança.
          Aprender a surfar nos finais de semana.
          Reclamar do plano de saúde.
          Dar mole pro Marcos.
          Usar mais o vestido azul que levanta os seios e a autoestima.
          E substituir nunca, por talvez, quem sabe...  
          Depois esticou com carinho o recém descoberto cabelo branco,
          celebrando a bendita finitude que faz a gente andar...
          ...pra frente!!!
 
 
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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

UM LUGAR CHAMADO BICHINHO

                                                                                  Estrada Real
       
É lá que os artesãos se reproduzem. Aos montes. Feito bichinhos!
São, na maioria, locais, que aprenderam a profissão e um jeito de sobreviver com arte. Entocados em seus ateliês e oficinas instaladas em casinhas antigas, muitas são feitas de adobe, um tipo de tijolo natural, mistura de barro e palha... É lá que o ferro de Minas se transforma em lindas flores artesanais e a madeira de demolição vira quadro de arte e móveis geniais nas mãos dos criativos artistas.
E foi assim, com a ajuda destes artesãos, que Bichinho se reergueu depois da febre do ouro e da sua derrocada...
Mas a história daqueles tempos cruéis insiste em continuar viva...  
Bichinho é uma homenagem a Vitoriano Veloso. Escravo alforriado, alfaiate, morto cruelmente durante a inconfidência mineira. Parece mesmo que seu espírito continua por lá... e vagueia nas tardes lentas, no local da emboscada.
Assim, a história vai cruzando toda a cidade, adentrando as igrejinhas barrocas e seguindo, enfim, pela Estrada Real. Caminho de terra e de pedras. Com direito a uma vista fantástica que nos dá a exata dimensão de tamanho e beleza das paisagens mineiras entre Tiradentes e Prados.
É lá, entre as duas, que está Bichinho. Pequenina. E grande, na riqueza da arte! Mas visitar Bichinho, como demora... É impossível comprar algum artesanato sem antes gastar meia hora de prosa com quem por ali estiver. E se tiver uma cachaça...
Na primeira parada, olhamos alguns objetos de arte e lá se foram quarenta minutos falando do ninho de pardal que se formou dentro do ateliê, com direito ao vôo dos filhotinhos por cima de nossas cabeças e a explicação tranquila e ralentada do dono da loja. Delícia...
Em outra oficina, mais prosa com o artesão que contou de suas invenções, suas vendas e suas doenças. Trocamos endereços e dicas de remédios...
Mas, já? Estava na hora de almoçar... Tutu, torresmo e cachaça da região. E  finalmente, a estrada real a nossa frente mais uma vez, com direito a uma rádio tocando músicas do tempo do império! Trilha sonora perfeita...
E foi lá, no meio da estrada cheia de história, de liberdade e sangue, de pedras reais e terra seca, que a coincidência se deu...
Um bichinho, pequenino e inconsequente, cruzou a frente do nosso carro,
com a calma de quem não tem medo, nem pressa de chegar.
Apenas cruzando a estrada e seguindo caminho... pra onde o sol de Minas levar...
Eta bichinho! Justo em Bichinho...
Tinha que entrar para a nossa história!

 


 

 
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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O SEGREDO DO NAGAO


      O jovem repórter não deve ter entendido a resposta daquele alegre e curvado

      senhorzinho japonês ao ser questionado sobre o porquê de suas árvores serem

      as mais belas.

      Haviam tantas árvores semelhantes naquele lugar... E da mesma espécie!

      - Mas afinal, Sr. Nagao, qual o segredo? 

      - Todo dia! Respondeu o velhinho.

      O repórter insistiu. O senhor rega as árvores todos os dias, entendo...

      Mas deve ter algo especial. Porque as suas árvores são maiores e mais floridas?

      - Todo dia! O segredo é todo dia! Sr. Nagao, respondeu novamente.

      Mas não tem uma fórmula secreta? Uma vitamina especial?

      E o velho insistia com um sorriso paciente e milenar...

      - Todo dia. O segredo é todo dia!

      O repórter então desistiu, imaginando que o velho japonês não tivesse entendido

      a sua pergunta. Ou talvez, compreendesse melhor outra língua...

      Confesso que eu também, com vinte e poucos anos e sem ainda ter plantado

      as inúmeras árvores que plantei, não teria compreendido o mestre Nagao.

      Nem o alcance da sua simples frase.

      Mas depois de muitos invernos...

      Das formigas que apareceram do nada e destruíram as folhas mais fresquinhas...

      Depois do vento forte que chegou de repente e quebrou os galhos repletos

      de florzinhas.

      Dos fungos que puseram abaixo um limoeiro em apenas três dias.

      E até mesmo da criança arteira que retirou todas as frutas, ainda verdes e azedinhas...

      Entendi que é preciso água. Sol. Adubo...

      E mais que tudo isso. O olhar, atento. Todos os dias...

     O segredo é todo dia!

     O Sr. Nagao, sabia.


*                    *                    *                      *                         *                          *                        *

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

GOSTO MUITO DE TE VER...

                                                                                                G1/Rota do Sol
            Sempre tive medo de leões. O olhar de poucos amigos...

            O rugido assustador. A mordida fatal... 

            Mas não deste leão. O leão da praia. Leão de cimento.

            Estátua tão amiga quanto antiga.  Reinando no meio do jardim.

            Impávido e sereno, o leão da praia está lá há mais de setenta anos.

            Assistindo a chuva, a ressaca, os fortes ventos. A noite nublada, a madrugada

            estrelada e os primeiros raios da manhã...

            Mas é no destino da estátua, pesada e dura, que sinto toda a ternura.

            Fico imaginando o brilho no olhar de cada uma das crianças. Milhares delas
 
            ao longo de tantos anos, com sorrisos iluminados, erguidas pelos pais para
 
            o grande momento: montar o rei das selvas e com as mãozinhas pequeninas
 
            afagar a grande juba de cimento!

            A alegria perpetuada nas fotos dos filhos, que já se tornaram pais, e já levaram
 
            seus netos e bisnetos e tantos mais...

            O leão da praia mora na lembrança de todos nós, crianças, de todas as gerações.

            Mas foi numa dessas noites de luar, feitas para poeta se apaixonar, que vi, ali,

            em frente ao leão da praia, um louco solitário, insistente e comovente a cantarolar ...

           - Gosto muito de te ver, Leãozinho!!! De tocar sua juba...

            Talvez ninguém tenha percebido o seu canto e todo o seu desatino...    

            Mas o Leão, ciente da sua função, escutava calado,

            aquele louco desvairado que só queria encontrar alguém no caminho!  

            E eu, que já desconfiava destas estátuas antigas...

            agora tenho certeza.

            Elas escutam os loucos. As crianças. E as cantigas!


      *                              *                             *                                *                             *

              Nesta semana, estréia da "RESENHA DO MÊS" , parceria com a Chiado Editora!
               Aguarde!