terça-feira, 30 de maio de 2017

ANTES DE LEVANTAR...

 
Mudos. Alguns permanecem no mesmo lugar, há décadas...
Tomam sol, tomam chuva. Só a paisagem é que muda. Eles continuam calados. Mas tenho lá minhas dúvidas, se não ouvem tudo que se passa. Pobres bancos das ruas e das praças! Como deve ser torturante...
Milhares de pessoas se sentam, conversam e se deitam em seus acolhedores assentos. Imagino as centenas de conversas truncadas e sem desfecho.  Papos interessantes que dão cabo com frases curtas e cortantes:  - Olha lá o ônibus! Vamos? E o banco, coitado, sem nada concluído, vê de longe, os recém amigos, partindo.  
Os bancos são referência. Os bancos são abrigo. Dos velhos cansados. Dos aflitos. Dos amantes. Dos solitários e esquecidos... Os bancos ouvem toda essa gente. Ouvem a crente e sua novena. Ouvem a intriga da loira com a morena. Ouvem os lamentos das viúvas. Pais e filhos com suas dúvidas. Senhoras e seus cãezinhos. Mendigos e pivetinhos. Tudo com tempo determinado. E nenhum assunto findado.  
O que dizer das  cozinheiras que trocam receitas inteiras e na hora de contar o segredo, falam baixinho... -Vamos andando, que eu te conto no caminho!  Ninguém pensa no pobre banco. Que ganha rabiscos, mais que carinhos!  
No entanto, o que mais deve incomodar aos sábios assentos, são os casais briguentos que nele se encontram e se sentam. Ah, se pudessem dizer que isso tudo é uma grande bobagem, e que os dois, mais tarde, voltarão ao banco e quem sabe, se sentarão sozinhos e cansados, procurando o amor do passado. Era melhor que tivessem ocupados com beijos e abraços, sexo e embaraço.
Mas não!  No seu silêncio sepulcral, os bancos não dão conselhos, nem sabem o final... Mas tenho certeza que eles ouvem!
E se pudessem falar... sairiam correndo atrás de quem saiu andando e pediriam suplicando: Conta pra mim? Pelo menos uma vez....o fim!
 
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quarta-feira, 24 de maio de 2017

PERDENDO OS DENTES...

Meu amigo perdeu a ponte! 
E foi no meu quintal. Engraçado foi ficar imaginando, no dia seguinte da festa, a quem pertencia aquela pecinha com gengivas róseas e um pré- molar...
Os convidados eram muitos e ninguém ligou para acusar o golpe. No terceiro dia, uma desconfiança certeira me levou até o colega de trabalho que agradeceu imensamente o resgate, prometendo mais cuidado, antes de sorrir com seu buraquinho lateral!
Foi aí que pensei nas perdas que temos pela vida... Não só as corpóreas. Dentes, cabelos, unhas, virgindade... As coisas materiais mesmo. Perdemos quase tudo. Perdemos a vida toda...
Quem não perdeu documentos?  Carteira com tudo dentro?  Chave? Aquele comprovantezinho importante? Guarda chuva... Teve um amigo certa vez, que teve um pacote de perdas! Numa mesma semana. Perdeu o emprego, o carro, a empregada. Embora o carro, segundo ele, tenha doído mais que tudo.
E tem também aquele buraco negro, dentro do carro, que leva nossos objetos para outra dimensão... Lá se foram alguns dos meus melhores brincos, moedas, até o controle do portão automático... Um verdadeiro limbo!
Por isso, meu amigo não deveria ter ficado encabulado pela ponte perdida. Estava em boas mãos! Triste mesmo, é ver amigos perdendo a vida, nessa violência urbana desenfreada. Uma ponte, um documento, um celular... isso não é nada!
Tem tanta gente nos governando e perdendo coisas maiores... Dignidade. Respeito. Reputação. E o Brasil todo segue perdendo. Perdemos os dentes de leite e a inocência. Perdemos a Copa e a competência. A bossa nova virou sofrência...
Só não devemos perder uma última coisinha, ainda que tímida: aquela pontinha de esperança. Chega das velhas dentaduras!
Dentes novos, Brasil!

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quarta-feira, 17 de maio de 2017

A TRALHA

 
Todo mundo tem aquela roupa velha... Que não dá, nem joga fora! Aquela que é a nossa cara.  E que se não pegasse tão mal, a gente usava todo dia, toda hora. Aquela roupinha amiga e usada, às vezes amarrotada, que acomoda tão bem a gente...
É peça já formatada. Amaciada. Que nos aconchega e traduz. Por fora e por dentro. Num dueto mais que perfeito!  Nem sempre é a mais cara. Na maioria das vezes, é aquela mais velhinha que encaixa certinha, no corpo e na alma.
Tive roupas que marcaram várias etapas da minha vida. De criança, era uma calça vermelha que eu usava todo domingo. Ninguém mais aguentava...  
Na juventude, uma calça jeans desbotada com bolsos na frente, que combinava com o estilo folk e meu violão amigo, sempre comigo.
Hoje, uma calça branca, meio solta, meio folgada, me representa. Já foi nova. Agora, clássica somente.  Uso exageradamente. Já não ligo para o que possam pensar...
Veio a idade que já não preciso explicar... Posso usar. Abusar. Sem me preocupar!  
E como as roupas marcam as pessoas... A gravatinha  do Jô...   Os botões gigantes da Rosane... Os terninhos da Onassis...  As golas do Elvis... e por aí vai!  
Mas para mim, as roupas mais velhinhas é que são inesquecíveis. Quando passei a dividir os espaços, os sonhos e a minha vida com alguém especial, tinha uma camiseta, velha, tamanho gigante que a gente disputava. Era ótima pra dormir. Cabiam pernas e braços. Ousados, unidos, espalhados... Além de todos os sonhos de um casal enamorado.
Era branca e vinha escrito em cor vinho “A tralha”... Quem achasse primeiro, pegava e ia dormir, vingado e feliz. Bem feliz!
Que roupa boa era aquela...
Uma camiseta velha! Aquela deliciosa, tralha...
 
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quarta-feira, 10 de maio de 2017

SÓ NOS RESTA CANTAR...

 
Eles se tornam crianças novamente. Só que agora não os levamos em carrinhos de bebês. Empurramos suas cadeiras de rodas...
Com ossos frágeis, desequilíbrio, corpos envergados. Ah... aquele fêmur que sempre quebra! E a indispensável fralda antes dos passeios...
Muitas vezes, temos que lhes dar comida na boca, para evitar de salpicar na roupa, iogurtes, sorvetes e sopas de legumes coloridos. Tempo , tempo , tempo, tempo... pois é, Caetano! É assim que é. Nós os filhos, agora pais de nossos pais! E fazemos tudo de novo. Ou, tudo de velho, afinal, estamos velhos de saber como a vida se repete e anda ligeira. E como tudo vai entrando em declínio no nosso corpo-matéria que vai se escangalhando no caminho. Voltamos, aos poucos, a ser criança novamente.
Não anda? ...vai no andador.  Não matisga? ...come papinha. Não dorme direito? ...erva cidreira e aquela pilulazinha! A medicina avança. A longevidade aumenta. E as doenças do cérebro continuam com seus enigmas...
Portas que se fecham. E outras que continuam terrivelmente abertas. Velhos capazes de lembrar coisas da infância e detalhes sem importância. E ao mesmo tempo, não sabem, sequer, o que comeram na janta!
Minha mãe, com noventa e dois anos e às voltas com seu Alzheimer, já não consegue compor frases e pensamentos longos. Não assiste mais tevê. E acha que mil é muito menor que oitocentos! Mas tem ainda poucos e bons momentos!
Há alguns meses, cercada de cuidadoras,  já que necessita de cuidados integrais, enfermagem, fisioterapia e mimos, Dona Olga fez o inimaginável... Ao ver uma bandeira da França na  televisão, começou a cantar em alto e bom som a "Marseillaise". De ponta a ponta! Com um sotaque impecável de Paris...
-"Allons enfants de la Patrie, le jour de gloire est arrivé ”... As enfermeiras não entenderam. Não era para entender...
Aplaudimos somente! 

                         
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quarta-feira, 3 de maio de 2017

DESAPARECIDA! NA ILHA...

 
              
Podia ter escolhido qualquer uma. Afinal, eram todas iguais... 
Mas escolhi a mais fina e comprida. Esbelta. Com a classe imperial das palmeiras. E uma ligeira inclinação para a direita, vista de frente, da areia para o mar...  
Era ela, a minha árvore. A escolhida!
Sabe se lá porque cismei de adotar aquela árvore, que para mim se destacava no meio da Ilha Urubuqueçaba, um relicário da natureza no disputado pedaço do litoral paulista.
E era confortável olhar para a ilha e saber que a minha árvore estava lá. Esguia e altiva. Toda vez que eu passava de carro, com a urgência urbana de quem corre sem grandes motivos... Ou quando, simplesmente, caminhava pela areia e a avistava de pertinho.  
A minha árvore! Firme, forte, verdinha...
Certa vez, na maré baixa, cheguei ao pé da ilha. Bati com as mãos nas pedras, como quem conquista um continente... e olhei para o alto! Nunca a tinha visto assim.
Ângulo diferente. Ar de grandeza. Já estava adulta. Temi pela sua soberba, mas logo pude ver nas jovens folhas, a mesma ternura e a inclinação, humildade e gratidão. Ufa!  Continuava minha...
Mas como tudo que é mortal, o tempo traz, o tempo leva...
Foi numa segunda-feira. Olhei para o alto da ilha e a minha árvore não estava mais lá. Procurei com os olhos aflitos e o coração apertado.
Mas, não. Havia uma fenda no seu lugar. Uma grande fenda no topo da ilha! Muitas árvores devem ter sucumbido lá.
Raios? Humanos? Erosão? Fúria de Zeus? 
Só sei que a minha árvore partiu. Como tantas outras que me encantavam... o meu limão cravo, a árvore de kinkan e até o chapéu do sol que o vizinho, imperdoável, derrubou....
Ela se foi. Deixando saudades!
Agora se junta a terra de onde veio e simplesmente semeia outras árvores, que vão surgir, iguaizinhas...  ou melhor, parecidas.
A minha árvore era única. A escolhida!
Ninguém sabia que era minha.
Eu sabia.
 
  

                                     Fenda/Urubuquecaba     fotos: Célia Loriggio
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