quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O VENTO LEVOU...

 
Foi no meio do caminho. O encontro desigual com a natureza. Ela, com a beleza. Eu, com a tentação!  
Era a Br 116. Estrada da morte. Por azar, ou pura sorte, uma magnífica flor no meio da paisagem apareceu. Nada mal. Ficaria perfeita no meu vaso solitário de cristal!  
E estava logo ali. Menos de um metro do sopé da Serra... Parei o carro no acostamento, entre o perigo e uma vontade tamanha. Só uma canaleta separava a estrada e a montanha.  De longe era pequena, talvez uns trinta centímetros e fácil de pular. Pois tinha mais de um metro e um entorno de espinhos a lhe rodear.
Com um pé de um lado e o outro feito compasso, me arranho e me amasso, até chegar ao seu alcance. Agarro a flor desejada, que mesmo esganada, insiste em  não se quebrar.
Puxo mais firme. Ela escapa. Desliza entre os dedos, com medo e exaustão. Queimando a palma da minha mão. Não desisto. Agora é que não! E sem nada que pudesse cortar, agarro a flor e começo a girar... girar... Até a bela se entregar.
Nessa altura éramos três. Eu, a dor, e a flor!  E aquela ideia, de horror.
Mas o vento forte de repente bateu. E feito pluma, diante dos carros e dos meus olhos, a flor, livre e desfeita, desapareceu...
Sobrou só o cabo. Caule seco. Sem vida.
Voltei pela mesma via... Mãos vazias. Sem a flor. Só a dor!

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quarta-feira, 23 de agosto de 2017

AINDA FAÇO ISSO...

 
Deve ser uma dessas modinhas. Mais uma! As incontáveis listas que aparecem nas redes sociais, com mais de cinquenta, cem coisas que uma pessoa deveria fazer antes de morrer.
Confesso que andei lendo. Algumas delas me pareceram um pesadelo. Não tenho a mínima vontade, por exemplo, de participar de um desafio nórdico para nadar sem roupas nas águas geladas da Noruega ... Nem trafegar em desfiladeiros da América Central, fazendo curvas acentuadas bem próximas do abismo... Ou, mergulhar cercada de grades, para ver de perto enormes tubarões...
Talvez minha porção aventureira esteja mais recolhida de uns anos pra cá!  Mas certas coisas bobinhas, sem necessidade de muita coragem ou dinheiro, confesso que tenho vontade de fazer um dia. Com total sigilo e oportunidade.
Uma delas é guerrear com travesseiros. De penas, claro. E de preferência em casa, pra ninguém ver...  Imagino as plumas flutuando no ar, em golfadas de apertos. Balé de penas, em meio a sopapos e solavancos. Divirto-me em  imaginar! Mesmo sabendo que os travesseiros de penas andam caros pra danar... Talvez desista desta experiência!
Outra vontade? Além de sapatear numa poça d’água junto ao poste, a “lá Gene Kelly”, coisa que fiz na última chuva... e de apertar geléias de mocotó colorido em supermercados, seria, com certeza, bem mais arriscado: imagine rolar na grama montanha abaixo, com uma escoliose na C4, e uma dorzinha de cabeça sempre a  latejar? Melhor não tentar.
Ah..mas tem uma coisa que dá pra fazer! Vi na semana passada. Um bebê de dois aninhos que colocava a mão dentro de um pote de sagú e esmagava as bolinhas incolores dentro daquela gosminha vermelha!
Ele caia na gargalhada. Eu também. Não sei se terei tanta ousadia !


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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

DÁ PRA FALAR AGORA?

 
Precisava falar com Deus... Mas tinha que ser agora!
Fico muito zangada quando encontro a porta da igreja fechada. E não tem ninguém pra me escutar. Oras! Tenho que ter hora marcada pra falar com Deus? E se for urgente? Se precisar falar neste exato momento?
É certo que a violência anda em alta e até santo no altar está desaparecendo. Mas precisava tanto falar... Se fosse de madrugada, a porta trancada, eu até entenderia. Mas ainda nem acabou o Fantástico...
Precisava falar em particular. Não na missa. Cheia de gente orando.Vozes e cantos. Queria Tête-à-Tête!  Falar baixinho. Contar umas coisinhas. Fazer uns pedidinhos... Alguns desabafos e arrependimentos. Mas, sobretudo, trocar uma idéia. Saber se o caminho está certo. Com que nota estou...
Mas com a porta fechada, fecho o tempo! E o coração. Devo marcar outra hora? Assim como no dentista, no médico ou no massagista? Ora, Deus não faria isso. Deus não pede pra adiar.
Bato palmas! Não tem coroinha. Nem padre na sacristia. Nem ninguém que possa intermediar.... Por um instante me divirto imaginando Deus em grupos do whatsapp, face, instagram... Não! Deus não aguentaria tanta superfície.
Desisto do nosso encontro urgente. Descobrirei outra maneira de lhe falar, quando a dor apertar. Volto caminhando pra casa, cabeça baixa em desapontamento.
Sem perceber que na esquina ao lado, com um morador de rua, em afável bate papo... estava Deus!
Eu nem vi! Ele me contou ...



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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

LICENÇA PARA ANDAR



Às vezes sinto uma vontade imensa de largar a rotina e andar.
Andar por andar... Numa estrada de terra ou na areia, perto do mar.
Não me pergunte quantas horas ou quantos dias. Trata-se de uma licença indeterminada para andar. E não me venha com a ideia de ir a Compostela. Não quero metas, nem objetivos a alcançar. Andar por andar! 
Também não quero ninguém no caminho. Talvez um passarinho. Um lagarto. Ou uma conchinha do mar. Quero o vazio. Esvaziar... Livres, o coração e a mente.
Caminhar sem pensamento, sentimento, lamento, contratempo ou investimento... Quero braços e pernas em movimento cadenciado. Coração tuntaqueando sossegado.
E a alma desdobrada, flutuando bem ao lado. Leveza, sem meditação. Sozinho, sem solidão! Andar por andar, sem maior ou menor explicação.
E depois de algum tempo, vagando, saberei a hora de voltar. Com certa satisfação. Como no último dia de uma longa viagem... Mas sem as malas entuchadas. Nem ticket de passagem.
Vou dar meia volta, somente, e recomeçar...
Um dia vou saber, onde enfim, quero chegar!

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sábado, 5 de agosto de 2017

RESENHA DO MÊS: FRONTEIRA - Luis Fernando Pereira

 
           ENTRE PALAVRAS E RÍTMOS...
                                                     ARMAS E CRUCIFIXOS...
“Os desgraçados vagam dias e dias como fantasmas, lamentando a própria sorte, a procura de uma saída. Mas logo o tormento se encerra. Porque se convertem em estátuas e desaparecem, esquecidos, entre os troncos de pedra.”
Imagens impactantes como essa, povoaram minha mente nos dois dias que reservei para a leitura do livro “Fronteira”, de Luis Fernando Pereira. Seus relatos são breves.  Muitos deles, mergulhados em submundos da América latina, recheados de regionalidade e terrenos incertos. De crenças e matança. Caboclos e vizinhanças. Bandidos e desafetos.
Com uma poética forte. O texto é bem articulado. Sonoro. Com frases curtas, excessos coloquias, gírias e hispanismos. As religiões aparecem em toda a leitura... Bíblia, espíritos, pastores evangélicos, feiticeiros, terço amarrado nos dedos, buzios e tarô...
Mas ninguém está imune às artimanhas da caveira. Enviaram pra me envenenar. Nossa Senhora disfarçada de Maria Madalena...”
Assim como as idéias de vida e morte, sempre presentes...
Ele tremeu, virou os olhos, berrou para fora da sua alma. Estava possuído pelo rei-general dos falecidos”.
E assim, segue o livro seu caminho de fronteira, coragem e espinhos. Às vezes como observador, às vezes como protagonista, o autor mistura repertórios e cenários...
Eu bebia com mineiros, mareado pelo pisco do pacífico, na companhia de um casal de suecos...”.
Mundos efervescentes. Mistura de bairros, línguas e países. Fanáticos, defuntos e videntes. Gentes e suas conturbadas relações. Até as tecnologias atuais surgem nos relatos, em universos familiares,  multifacetados e contemporâneos.
O que parece unir tudo isso? A vertigem. O relato breve. As Frases curtas. Tudo bem articulado de modo a ditar forte rítmo ao texto, selvagem cavalo em marcha.
E  Luis Fernando Pereira, ultrapassa assim sua fronteira...
“A gente acha que cria, mas não decide nada, as sentenças já vem prontas com a página”.
Um livro interessante. Para se conhecer!
Menção honrosa no prêmio Sesc de literatura 2014.

Título:  FRONTEIRA
Autor: Luis Fernando Pereira
Data de publicação: março/2016
Páginas: 79
Coleção Passos Perdidos
https://www.chiadoeditora.com/
https://www.facebook.com/ChiadoEditora
 
 
 
 
 
                       

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

É DOIDA A LUA?

 
 
 
A lua anda! Dando sustos e inspiração! É cada aparição...
Ora surge na minha janela, imensa e amarela. Pintada para a noite. Bela donzela!
Ora é filete de unha que aparece quando entardece. Fina e magrela. Corta e fere em tempos de solidão. Minguando com meu coração.
Outras vezes é novinha. Branca. Redondinha. Lua cheia! De luz e magia. Lua das musas e fadas madrinhas. Protagonista eterna da noite. Enfeite natural no horizonte!
São infinitas as luas... Lua dos amantes. Das cartas de tarô. Lua de São Jorge e do teatro Nô. Lua pequena e distante. Lua vermelha de sangue. Lua dos morcegos, em noite de nevoeiros... Lua que surge na fumaça. Companheira solitária dos que vagam na praça...
Lua do sertão. Lua do rastro no mar. Lua de Ushuaia e do deserto de Madagascar! Lua da praia. Da gandaia... E dos loucos como ela, a girar.
Mas a lua mais marcante que vi nascer foi lá em Paraty. Para mim e para todos ali.
Vi do alto da ponte. Sobre o rio que separa o Centro histórico da cidade. Nem parecia verdade. Impavidamente se erguia, deixando uma luz guia. Rastro dourando as águas escuras... Os escravos fantasmas e suas amarguras. Visitantes. E barcos a descansar...
Com tanta luz a nos presentear, deu vontade de aplaudir. Talvez, de chorar.  
Ah... mas é doida essa lua, sim! A lua dos homens e do lobisomen. Que faz dormir as crianças e acordar os poetas... Lua vista de fenestra. Aquela que bóia e flutua!
Pois que depois de tantas aventuras, a lua ainda anda, nas noites frias,
completamente nua!
Doidivana  lua!   
 
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